Aqui, um documentário bem bacana sobre a obra e vida de Hilda Hilst, exibido pela Rede Minas.
Aqui, um documentário bem bacana sobre a obra e vida de Hilda Hilst, exibido pela Rede Minas.
Vamos falar agora sobre mais uma de nossas grandes contribuintes
da literatura brasileira, mais especificamente da poesia
brasileira. A poeta que abordaremos é, ninguém mais, ninguém menos,
do que a fabulosa Hilda Hilst, uma paulista que viveu no período de
1930 a 2004 (olha só, consideravelmente recente!). Filha única de
uma relação que não durou muito,
Hilda teve de enfrentar a
separação de seus pais ainda quando criança, mas qual teria sido a
causa da separação? Pra quem não sabe o pai de Hilda sofria de
esquizofrenia e foi internado em um sanatório quando ele tinha,
apenas, 35 anos de idade, local do qual só saiu vestindo um paletó
de madeira (mas isso não vem ao caso – é apenas um mero
comentário).
Além da infância ‘conturbada’, a poeta levava uma vida
boêmia e repleta de amores, enlouquecendo a cabeça e o coração de
grandes homens como empresários, poetas e outros artistas nacionais
e até internacionais! Dentre seus affaires, podemos elencar nomes
como o do nosso Vinicius de Morais; o ator americano Dean Martim, e
até o Marlon Brando (no caso deste último, a falta de sucesso se
deu, aparentemente, pela inaptidão do ator em lidar com a
mentalidade adianta da donzela – leia-se: o assédio,
hahaha!). Além disso, teve, ainda, como melhor amiga Lygia Fagundes
Telles (meo deooos, mas que mulher!).
Hilda formou-se em direito, mas preferiu não seguir essa carreira,
pois se identificava mesmo com a literatura. Não escreveu apenas
poesia, criou também contos, crônicas, novelas e até mesmo teatro,
ganhando vários prêmios. Por quase 50 anos, escreveu dezenas de
obras, que serviram de inspiração para compositores como Adoniran
Barbosa e Gilberto Mendes. Hilda foi sempre levada a sério na
literatura (não que as outras mencionadas não fossem), uma vez que
era considerada como uma escritora difícil e de poucos leitores.
Sua obra tem traços fortes, e tratava sem medo de assuntos como a
morte, sexo (chegou a ser considerada uma poeta erótica) e
Deus.
Eis alguns:
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
(Do Desejo – 1992)
Colada à tua boca a minha
desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
( Do Desejo - 1992)
Muita gente já deve ter visto, mas essa entrevista é bem bacana. Aqui temos apenas a parte um, quem se interessar, o link para as outras partes aparecerá ao final.
Não, não estamos falando da Ana Cristina César, refiro-me à Ana
Patrícia Vieira Rodrigues César, jornalista, poeta e ficcionista,
considerada, também, feminista. Sua atuação na imprensa brasileira,
nas primeiras duas décadas do século XX, foi marcante. Militou a
favor da educação e da cidadania plena para as mulheres,
questionando a domesticidade feminina como única esfera de atuação
da mulher. Defendeu a igualdade intelectual entre homens e
mulheres, um processo de democratização amplo, que erradicaria a
discriminação racial e de gênero. Em suma, foram muitas suas lutas,
e mais ainda seus escritos referentes à elas, não se limitando
apenas ao âmbito das questões femininas, mas contra toda forma de
preconceito.
Fora da literatura (mas nem tanto assim), Ana fundou e presidiu a
Legião da Mulher Brasileira, associação de finalidades
cívicas, educativas e filantrópicas. Foi vice-presidente da
Escola Dramática Brasileira. Escreveu para vários jornais
cariocas (embora tenha nascido em São
João de Camaquã, no Rio Grande do Sul, em 1864),
entre eles A Pátria; jornal este que realizou um
plebiscito sobre qual deveria ser a primeira mulher a ingressar na
constituinte da década de trinta, e do qual Ana saiu ganhadora. Foi
Patronesse da cadeira número 31 da Academia Feminina do Rio Grande
do Sul. Morreu no Rio de Janeiro, em 1942.
Infelizmente, não foi possível encontrar uma poesia de Ana (até
mesmo pela grande confusão que fazem com a outra Ana, a Cristina
César), mas deixaremos aqui o título de alguns de seus livros,
tanto de crônicas, quanto de fragmentos. Caso nos deparemos com
algum poema de Folhas Soltas (seu único livro de poesia),
postá-lo-emos.
Esse é praticamente um poema em prosa, aproveitem:
Antiguidades
Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.
Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito corrente e pedagógica.
Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.
Não poupava as crianças.
Mas, as visitas...
- Valha-me Deus !...
As visitas...
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas !
Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversar
que davam sono.
Antiguidades...
Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita - alta, magrinha.
Lili - baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:
"- Lili é a bengala de D. Benedita".
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.
D. Joaquina Amâncio...
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.
O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.
D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.
Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando "causos" infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.
De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
- ai de mim -
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.